segunda-feira, 22 de junho de 2009

Todo mundo agora é jornalista...


O Brasil invicto eliminou a Italia por 3 x 0. Irã admite pelo menos 10 mortes em protesto. Identificados corpos de 11 vítimas do voo da Air France. Crianças de Marajó se prostituem por hot dog. A cripe súína chega em um colégio de São Paulo. O apresentador Ratinho esta de volta e com ele o direito a baixaria na televisão. O chão de baile funk cede em Porto Alegre e deixa 90 feridos. Grifes tentam vencer modafobia de homens. Diabéticos não têm a doença sob controle. Máxima do tempo em Salvador 26º graus, em Belo Horizonte a mínima é de 10º graus. Fluxo de dólares para emergentes não vai cobrir dívidas segundo o Bird. E a meta de inflação de 2011 deve ficar em 4,5%. Cinemateca recupera arquivo da TV Tupi.


Tudo é tratado de forma superficial. Por ser superficial, é repetitivo em muitos momentos. E a moça na banca hoje me disse que não iria ler o jornal, por que hoje era feriado. Ela estava cansada. Anda lendo coisas demais pela cidade e nada mais chama a sua atenção. Ela quer sossego.


Passamos o dia sendo manipulados por outras pessoas e esquecemos quem realmente somos. Sim, meu amigo, nada mais vêm por acaso e nos tempos de gripe suína nada mais é seu de verdade.Então nessa procura insana por um pouco de verdade, não uma verdade fria e absoluta. Uma verdade sua, e outra minha. Nessa procura por um pouco de essência nua e humana, é que tentamos manter o centro gravitacional do intelecto e ficar por fora disso. Relaxe, alguém vai lhe dar uma notícia hoje ou amanha, mesmo nao se sabendo como.

Na banca em que você compra caqui, eu forneço o caqui!


Conto ou não...contos.


Sentado concentrado no livro de contos que Tarcísio me deu. Acabei de relembrar minha Minas tão cheia de modos e mineirice. Li um conto de Adélia Prado chamado “Sem enfeite nenhum”. Um jeito de escrever que me encanta que me põe no chão. Um final que me enche os olhos de lágrimas. Bem, estou em casa nesta semana de São João. As ruas estão completamente desertas e passear com Titus foi muito mais divertido, tranqüilo e sem pressa. Hoje o tempo corria devagar... Andamos a observar o mar de Amaralina; pela primeira vez na vida, andava com um cachorro a beira mar. Abafava de quente, depois de uma chuva de vento, desastrosa ( e chata) voltamos a caminhar. Pensei nas coisas de urgência que as pessoas sempre tem à fazer. Eu não ando com urgência em nada. É tarde, na praia com o cachorro e o mar. É tudo muito tranqüilo. É uma paz de São João. Viva São João e viva o milho verde!!! Nunca gostei de fogos no ar...nunca gostei de forró pop. O que sei de forró vem de Luiz Gonzaga e Dominguinhos que eu gosto demais da conta. Thadeu vive pra me fazer ouvir Elba Ramalha, mas não consigo ouvir mais que duas músicas. Mas enfim, as ruas estão tranqüilas porque é festa de São João na Bahia. Daí voltei e estou aqui com esse livro de contos despreocupado no sofá. Estou com saudades do cheiro de Minas, da tábua pub que comia com os amigos no café com letras...Estou com saudade do frio. Mandei e-mail pra muitos amigos. Aqui frio é abafado. Meu coração fica em parte aqui esperando o dia de retorno à pátria do pão de queijo

Nem sei por que estou escrevendo tudo isso. Não tenho nada pra contar. Ou teria algo pra contar? Eu apenas estou contando o que não é pra contar. Uma segunda cheia de contos e não contos.

sábado, 20 de junho de 2009

Como se estivesse com a cueca mais cara...


Hoje eu acordei tarde. Saí no inicio da tarde com o cachorro pra passear. Brincamos com as ondas no mar. Andei pela praia sem rumo. Caminhar pela praia sem rumo me faz sentir em uma direção certa. Me faz sentir como se eu soubesse exatamente para onde estou indo. E gosto de pensar que sei...
Caminhei indo obstinadamente para lugar algum, obstinadamente eu não sabia para onde estava indo. Embora acredite que sempre saiba. Embora goste também de acreditar que sempre sei do lugar certo do destino certo de todas as coisas devo admitir que não faço a mínima idéia.


Precisava voltar e arrumar a casa... Pensei em ocupar-me com os afazeres de casa. Como se de certa forma tivesse arrumando minha vida. Você pode limpar sua casa, jogar fora o lixo que transborda, deixar o chão brilhando e o ambiente cheiroso. Mas por dentro continua tudo igual. Depois fui tomar um bom banho e lembrei de um caso que meu chefe me contou. Desses casos de empresa querendo motivar os funcionarios. Ele falando sobre atendimento e tal falava que era preciso se imaginar como se estivesse com a cueca mais cara. Dessas que vc compra em lojas de grife. Tipo ninguém sabe o motivo aparente de tal felicidade mas sim, você esta usando uma cueca de grife que custou muito cara!!! A felicidade vem dai. Sai do banho e fui procurar um cueca mais fuleira que tinha. Não preciso disso, então sorriso no rosto e um ar agradávél, afinal de contas ninguém tem nada a ver com seus problemas.






quinta-feira, 18 de junho de 2009

Cama Suja

No fundo, desconfio muito dessa coisa de ética. Antes de tudo porque a palavra "ética" é como "energia", cabe em qualquer lugar. Ética profissional, ética no amor, ética com a natureza, ética na cama. Falando especificamente de cama, quanto mais suja, melhor. Quando ouço alguém falar em nome da ética, fujo.
Prefiro mentirosos inseguros. Os hábitos civilizados dependem mais da mentira do que da verdade.
Claro que não se trata de desprezar a sólida tradição da ética na filosofia: Aristóteles e sua ética das virtudes e do caráter; Kant e sua busca insaciável por regras universais de comportamento; ou os utilitaristas ingleses e os céticos escoceses, e a sensibilidade de ambos para com os limites psicológicos da moral presente no reconhecimento do horror ao sofrimento e da preponderância do hábito e dos afetos sobre ideais abstratos de "bem" ou de "justiça" como verdadeiros critérios da vida moral.
Por exemplo, o que vem a ser "ética no amor"? Dizer pra ela que está gorda? Ou dizer pra ele que seu desempenho está abaixo de seus outros amantes? Ou seja: é dizer sempre a verdade?
Outro tipo que me põe correndo é gente bem resolvida com seus afetos. Só confio em quem enlouquece de ciúme, em quem perde a cabeça quando sua mulher ou seu marido está conversando com alguém do sexo oposto com cara de quem achou um espécime interessante na festa. Aceitar que sua mulher ou seu marido está a fim de outra pessoa e ficar de bem com isso é papo de gente imatura. Ou de quem, na verdade, não ama. Amar é ficar fora de si ou ficar bem consigo mesmo porque não ama mais. Não existe gente bem resolvida, só gente indiferente.
Todavia, com o tempo e as frustrações, a maioria de nós chega à triste conclusão de que é mais feliz quem é mais indiferente.
Aliás, a partir de determinada idade, achar alguém interessante é tarefa para deuses. Com o tempo, temos a impressão que só existem três tipos de pessoas com três tipos de problemas básicos. Suas vidas são comuns; seus anseios, banais; seus desejos, mesquinhos.
Cheias de amores malsucedidos, quanto mais experiência amorosa, mais previsível. Bobagem essa coisa de dizer sempre a verdade. Coisa de gente que não conhece gente e pior, gente que não gosta de gente. Nesse assunto, não existem imperativos categóricos (leis morais universais à la Kant). Aliás, o grande filósofo alemão Kant era muito bom de filosofia, mas não entendia nada de como as pessoas cheiram ou suspiram.
Por exemplo, tirem o pudor do amor e do sexo, e eles desaparecem. A simples suspeita de que o inferno te espera por culpa de tua fraqueza torna o amor e o sexo dádivas das deusas. Como se com elas deitássemos às escondidas. Por isso minha desconfiança visceral com as bobagens juradas contra o sexo e o amor atormentados pelo pecado.
Já disse antes que confio mais no fígado do que no cérebro, hoje diria que confio mais na alma afogada nas secreções do desejo do que na higiene das santas e honestas. Não há nenhum dos dois (sexo e amor) se não existir a ameaça da condenação. O medo aqui é como uma saia curta que esconde, entre as pernas, uma alma ansiosa. A banalidade da nudez contemporânea é a prova cabal contra o discurso dos afetos bem resolvidos. Neste sentido, os medievais, aliás, como numa série de outras coisas (o leitor dirá "sempre desconfiei que este colunista fosse um medieval"), sabiam mais do que nós, bobos da razão.
Qualquer boa literatura romântica medieval sabe que amor e sexo estão intimamente ligados ao inferno nas paixões. Ninguém ama no paraíso, argumento final contra a salvação. Mesmo na Bíblia, no Cântico dos Cânticos, aquele livro considerado pela tradição judaica como o mais sagrado dos livros sagrados, encontramos a advertência da amada, a heroína da narrativa: "filhas de Jerusalém não despertem o amor de seu sono... a paixão é um inferno".
Mulheres sempre foram vistas como especialistas no amor, talvez pela imagem ancestral de que nunca foram seres iludidos pela razão, mas sempre torturadas pelo desejo. Para mim está é a maior das provas de que cegos são os homens que as veem como inferiores.
Divago, dirá meu caro leitor. Sim, divago, mas não deliro. Como se num voo, do alto, contemplasse homens e mulheres vagando por um continente abandonado, fugindo da própria sombra. Pessoalmente vejo a ética como o combate supremo do homem com o animal que o devora.
...................................................................
Por Luiz Felipe Pondé para a folha de Sao Paulo

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O movimento belo do ser estático.


Hoje é segunda feira, véspera do dia do meu aniversario. Sentado em frente à porta da varanda observo a chuva fina caindo. Estou tomando café com os olhos fixos na chuva e os ouvidos sentindo cada frase da música “Drão” de Gilberto Gil. Hoje ainda cedo não agüentei esperar a água do filtro cair no meu copo. Foi ai que percebi que a paciência não estava comigo. Fiquei pensando em mim. Fiquei pensando em nós. Pensando nas gentilezas que as pessoas fazem comigo e ando não percebendo. Estou com aquela ansiedade chata, e pelo menos tentando sair dela. Você já segurou o celular a esperar que ele toque por uma razão obvia da necessidade? Pois bem, preciso que meu telefone toque. Questão de necessidade. Não sei por que estou dando tanto sentido a tudo isso. Eu não deveria dar essa atenção toda à véspera de meu aniversario, ao telefone que não toca e nesta tentativa de querer agradar todo mundo. Não mesmo. Tudo devia transcorrer em tempo e espaço navegando todos os sentidos. O tempo é rei diz Gil nesse momento. Água mole em pedra dura tanto bate que não restará nem pensamento.

Acabei de ler nesse fim de semana um livro do Pessoa. Acontece comigo agora uma súbita mão de algum fantasma oculto:


Súbita mão de algum fantasma oculto
Entre as dobras da noite e do meu sono
Sacode-me e eu acordo, e no abandono
Da noite não enxergo gesto ou vulto.

Mas um terror antigo, que insepulto
trago no coração, como de um trono
desde e se afirma meu senhor e dono
sem, ordem, sem meneio e sem insulto.

E eu sinto a minha vida de repente
presa por uma corda de inconsciente
a qualquer mão noturna que me guia

Sinto que sou ninguém salvo uma sombra
de um vulto que não vejo e que me assombra
E em nada existo como a treva fria.


Agora vou tentar ler essa semana o livro escrito por Burroughs e Kerouac: E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques. Preciso encher minha mente de outras coisas e deixa de esperar o celular tocar. Preciso ter paciência para conseguir dar valor a tudo. Eu tenho muita sede...e assim sem paciência não vai rolar. Preciso aproveitar o tempo que água cai no meu copo pra pensar certo sobre as coisas. Esperar é o certo. Não pensar seria o correto. Não penso logo não existo. Quero acabar com essa minha fuga. O fato de não saber me dá vontade de gritar. Mas eu não grito. Eu respiro, deixo que o ar faça por mim o trabalho de encontrar soluções para tudo. Sempre que opto pela opção "respiração" as coisas se encaminham de uma forma absurdamente eficiente. Sempre que opto por estar no controle de tudo os destinos e sentimentos sempre me escapam pelas mãos.
Nesse tempo de falta de paciência e de estar longe dos meus queridos amigos e da família existe um algo mais: Lembranças das noites de caos em meio as multidões, em que eu procurava em fugas alcoólicas um beijo com gosto de verdade. E na procura vã voltava triste e me fechava para a realidade triste da condição de ser humano: o de estar só mesmo acompanhado.

.............................................................................................................................

Um pedido de desculpas a Luciana Santana e Gabriel pela falta de paciência.
Dedico esse texto a vocês e a também a Janaina Cruz, Carol e Jouber pelos belos textos.
Jouber, o ouvir Drão é a mais forte lembrança que tenho da sua pessoa. E sempre essa canção me remete a você. Sempre. Drão é a melodia da separação na sua condição histórica.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Caio em Fernando Abreu e a chuva cai lá fora




Essa noite ventou muito e ainda cedo uma forte chuva caiu sobre Salvador. Acordei antes das 5 da manhã, pois tinha uma entrevista de emprego  no Centro Empresarial no Iguatemi. Fui preparar meu café. Coloquei uma música de Gal pra tocar- Aquele Frevo Axé. Na tentativa de  encontrar um documento caiu bem na minha frente um livro de Caio Fernando Abreu. Pensei muito nos deliciosos tempos de leitura que tive com aquele livro. Lembro que certa vez em Olinda estava feliz lendo Caio bem em frente ao Rio Capibaribe com sua Recife Antiga. Então, mesmo com todos os compromissos diários e afazeres usuais, parei para me entregar à releitura e deixar que minha mente traçasse as retas e criasse os cenários, e sem subliminares manipuladoras. Li o texto em voz alta na varanda olhando pra chuva e vendo nascer uma manhã cheia de promessa e poesia. Assim do nada. O dia fez um sentido danado.
O dia em que Júpiter encontrou Saturno
- Quando a noite chegar cedo e a neve cobrir as ruas,
ficarei o dia inteiro na cama pensando em dormir com você.
- Quando estiver muito quente,
me dará uma moleza de balançar devagarinho na rede pensando em dormir com você
.- Vou te escrever carta e não mandar.
- Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir.
- Vou ver Júpiter e me lembrar de você.
- Vou ver Saturno e me lembrar de você
.- Daqui a vinte anos voltarão a se encontrar.
- O tempo não existe.- O tempo existe, sim, e devora.
- Vou procurar teu cheiro no corpo de outra mulher.
Sem encontrar, porque terei esquecido. Alfazema?
- Alecrim. Quando eu olhar a noite enorme do Equador,
pensarei se tudo isso foi um encontro ou uma despedida.
- E que uma palavra ou um gesto,
seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros.



(Silêncio)





Caio Fernando de Abreu

sábado, 6 de junho de 2009

Isso é pra te levar no ilê




Estive no bairro da liberdade pra uma festa do bloco ilê aye. Não posso deixar de relatar minha imensa alegria de estar no meio da negrada linda. Um povo extremamente dançante e de fazer delirar. As mulheres com as maos nas cadeiras e swingando com leveza e beleza. É bonito de ser ver... é uma bela festa. Fiquei extremamente emocionado com o movimento deles. A valorização da cultura negra através da musica e da dança. Quando vier a Salvador, nao deixe de visitar o Ilê, não deixe de conhecer o badauê...nao deixe de acreditar que a arte e a educação vão mudar o mundo. Lembrarei sempre do calor e do brilho nos olhos do povo. E tudo que senti esta muito vivo dentro de mim. Tem cheiro,cor,gestos,jeitos e música. E vai parecer rídiculo o que vou dizer agora, mas naquela noite a minha alma negra aflorou.


Foi visitando o Ilê que pensei sobre o meu olhar vesgo e ambíguo para com o negro no Brasil. Descrever esses belos adjetivos é uma forma de mascarar o preconceito que ainda existe.


Às vezes, até parece que o essencial é fugir à questão verdadeira: ser negro no Brasil o que é?


Trata-se, na realidade, de uma forma do apartheid à brasileira, contra a qual é urgente reagir se realmente desejamos integrar a sociedade brasileira de modo que, num futuro próximo, ser negro no Brasil seja, também, ser plenamente brasileiro no Brasil. É que tudo possa continuar a ser festa com todas as suas cores!!!






.........................................................................................


O Ilê Aiyê, o mais antigo bloco afro de Salvador, lançou no dia 30 de maio, o seu tema para o Carnaval 2010: “Pernambuco, uma nação Africana”.