sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O jogo: ser e saber x fazer


Não sei falar... Posso escrever?
Hoje retornei ao trabalho após três dias em casa com sinusite crônica. Confesso que estava disposto a desenvolver todas as estratégias de como vender, para de fato vender, e chegar ao objetivo da companhia. Não sei explicar. Não deu.

Era um clima denso... Uma energia pesada, as coisas ficavam meio que paradas no ar. Não houve movimento na loja. Estamos no fim de janeiro e o povo esta sem dinheiro. Não havia produtos novos na loja. Não havia demarcação interessante para que o cliente pudesse levar pelo preço bacana. Enfim não havia muito atrativo, mas havia um clima hostil.

No caminho do trabalho passei a padaria: comprei pães, queijo e uma sopa pronta para poder jantar e me alimentar direito. Pensei no café que sempre gosto de preparar quando chego ao final da tarde em casa. Pensei em ir até o Porto da Barra dar um mergulho... Mas estou sem energia, sem entusiasmo pra realizar coisas. Estou inquieto e estranho e fora de orbita. Pensei em sentar e escrever com calma a noite toda. Pensei em muita coisa, mas do que preciso mesmo não tenho agora. Precisava sentar e ter alguém para apenas me escutar. Queria apenas sentar e chorar ate cansar sem precisar falar nada. E que ninguém me pedisse explicação de nada. Sinto-me estranho, como se estivesse roubado algo de alguém e que agora a culpa me tomasse conta. Estou com preguiça, a palavra é essa mesmo, preguiça de justificar tudo o tempo todo. De usar palavras para me defender no trabalho. De usar palavras para tentar explicar aquilo que os meus atos não provaram. De fazer o uso disso em defesa própria. É tudo tão pequeno...você sabe que é tudo tão pequeno. Vale mais a saúde. Vale mais o olho no olho. Vale muito mais a parceria. Vale muito mais abrir mão da critica pesada para permitir o erro alheio. Errar é mais que humano. Então esse jogo proposto não tem sentido. Onde iremos chegar? Somos apenas uma ferramenta de um poder maior. Ninguém cria sozinho por si e para si mesmo. Precisamos de idéias maiores.

Gosto de mergulhar quando entro nessas de pensar demais na vida... Vou cair no colo de Yemanjá, mergulhar é sonhar acordado.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Ensaio sobre a sinceridade

Teu recolhimento é justo. Não posso me meter. Só quero que saiba que estou do "teu" lado. Esperando uma música nova... Um sair pra comer na Doce Sonhos...comer caixas de chocolates mesmo em dias quentes...Deitar na cama e ficar contando os nossos casos...Dar gargalhadas sem fim com nossas histórias... Estou esperando um convite para mergulhar a noite no Porto da Barra, pode ser?
Quero que saiba que te exibo em milhares de coisas, pequenas, mas que somadas são tudo. E espero ansioso o dia em que voltará com os"oião brilhando de sorrir".
Tento suspender qualquer julgamento para deixar claro que essa fase vai passar.
Abandonado, corpo e pensamento...
Assuma com integridade tua escolha.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Por que a vida é agora...

Agora era dez e quarenta da manhã.

Lendo a biografia de Clarice de Benjamin Moser. Entrei ao banheiro levando comigo o livro “Descoberta do Mundo” para releitura de algumas páginas. Fiquei surpreso ao perceber que Clarice também leu as obras de Thoreau, ou pelo menos alguma coisa deste escritor que tenho verdadeira paixão. Também muito feliz pela apresentação do escritor que até então não havia lido nada a respeito: Lucio Cardoso. Com escafandro fiquei horas ali mergulhando naquele texto. É necessário mergulhar com escafandro para que não sinta mal quando voltar à tona e respirar o mundo aqui de fora.

O banho foi de alegria, a água gelada batia no meu corpo reativando tudo e abrindo o clarão dentro do meu corpo, engraçado, que tudo isso se passou no menor e menos freqüentado banheiro da casa: o de serviços. Fiquei repetindo a frase final do texto: a satisfação requer risco, sem o qual viver não vale a pena. É preciso ser feliz agora. Somos feitos de “agoras”.
Eu ria e repetia a frase enquanto a água gelada batia no meu corpo. Foi uma lavada na alma literalmente viver aquilo tudo.

Agora era uma e quinze da tarde.


Sai feliz para trabalhar, prestei atenção em tudo como sempre faço. Existia um riso sem fim em mim. No trabalho aproveitei a reunião para ler o texto para os funcionários. Pode parecer loucura num mercado de varejo, a literatura tomar espaço. Ali é vender, vender e vender! Mas somos humanos, somos feitos de carne e osso e sentimento. Existe um querer viver para pós-trabalho. Ali somos invadidos por um mecanismo que me causa espanto. O tempo ali passa depressa. Somos cheios de eventos ao longo do ano para alavancar a venda. Ali tudo é um processo para vender. A vida é mais que um simples processo. As pessoas reservam o melhor da sua capacidade de pensamento para a respectiva especialidade profissional, acabam se esquecendo do grande processo que é viver. Viver é o nosso grande projeto. É preciso descobrir rápido o porquê se vive. Pois bem, ali fiz a leitura do texto de Clarice e percebi que todos estavam assustados diante daquelas frases. Os olhos surpresos diante de um texto fora do contexto de venda. Não houve ali nenhum movimento dos músculos e dos cílios.
Alguns queriam saber o nome do livro, outros ficaram atravessados com a provocação. Mas a intenção era provocar mesmo uma coceira neles. Por que só a literatura nos liberta e nos provoca um mundo novo. Volto a dizer: é preciso desligar a t.v e ligar-se no que de fato faz ou fará importância na sua vida. A melhor novela é a novela da vida gente.

Tentei fazer minha parte e tento sempre falar dos grandes escritores para gerar um fluxo diferente na forma de viver. Tento ser transformador ao falar com as pessoas. Minha esperança maior é oferecer algo que possa inspirar a vida.

Meu sonho era poder saber escrever. Não basta apenas entrar no quarto e começar escrever como diz Thoreau; é preciso talento. Não sei chegar à casa do entendimento, tem dias que sou puro sentimento e as palavras correm de mim. Meu prazer mesmo é ler!

Lendo Adélia, Clarice, Susan, Woof, Lygia, Hilda, Ana Cristina, Carlos, Nelson, João, Rubem, Fernando, Ferreira, Henry, Charles, Caio, Manuel, Oswald, Mario, Vinícius, Paulo. Nomes que me fazem viver. Lendo-os, vivo na tentativa frustrada de tentar por pra fora o que recebo. Corro o risco do preconceito lingüístico. A idéia ta posta com todos os seus erros (gramaticais) como é a vida, não é mesmo?
Comprei velas aromáticas pensando em chegar a casa e após um banho ficar a luz de velas, ao som de um jazz pós banho. A casa toda escura, a dança dos fogos dentro dos copos com velas. O som invadindo a casa toda. Minha alma leve. Diria que se morrer fosse assim, seria a melhor de todas as mortes. Uma morte em paz. Mas me sinto vivo. E muito alegre diante desse “agora” que provoco em mim.

Agora era onze e vinte da noite.

Tentei ligar pro Frederico Rubinger e acabei me esquecendo que em Belo Horizonte as horas estão adiantadas em relação a Salvador. Não consegui falar com Fred. Estou afoito, doido pra falar com meu amigo. É pra ouvir a voz dele mesmo. É pra ouvir qualquer amostragem do que lhe apetece.

Agora era quase uma da manha.

O som do jazz, na janela as velas dentro do copo dançavam a medida que o vento entrava também na casa. Todos em festa juntos com minha alma. Deus tava ali comigo, disso tenho certeza. Felicidade se acha em horinha de descuido não é Guigui*?

Agora parece que estou dormindo e sonhando...

Desejo uma vida sem automatismo. Um dormir e acordar para de fato viver. Descanse em paz. Viva com amor. Deixe ser tomado por um sentimento maior: Deus está nos detalhes, lembra dessa frase? Lute com você mesmo, deixe o outro em paz. Ou não lute com você; esteja em paz consigo e com todos. Só quem fez a guerra (e refiro a guerra interior, ta?) tem o direito de deitar a beira do rio para repousar... Aprenda a viver em 2010, ainda dá tempo!

A noite esta cheia.
O ano esta no fim.
A vida então recomeça...
Agora eu vou dormir.

*Guigui é o meu apelido a João Guimarães Rosa que se apresenta em mim com uma enorme criança de belos textos. Criança com sua simples e geniosa forma de ver a vida.