
O Sol, o ventilador e eu...

O que quero escrever está perdido. Não consigo encontrar a palavra certa no meio dessas tantas caixas espalhadas nesse apartamento. Nesse apartamento no delicioso bairro do Rio Vermelho, preciso sempre dizer isso quando estiver me referindo á este espaço. Quero que o fato de morar nesse espaço fique marcado na história da minha vida. Sempre percebi que grandes escritores sempre estão associados as cidades onde viviam. O Rio é de Machado de Assis, Lisboa é de Pessoa, Buenos Aires de Borges e a Bahia é de Jorge Amado. Sempre dele, amado. Agora meu olhar para este novo espaço... Agora já consigo perceber. As palavras começam a surgir a cada caixa aberta. Onde percebo objetos que fazem partem da minha história. Agora tua foto na minha mão. Um livro seu esquecido no chão figurando entre tantos outros livros. Muriel Barbery lado a lado com Allan Poe. [Risos] Começa um universo de palavras dentro desse apartamento. As palavras só não vieram por que estavam ocupadas vigiando meus impulsos.
Sei que você esperou por estas palavras por muitos dias, na esperança de que elas aliviariam a minha dor, a minha impaciência diante da desordem. Que desordem? Livros espalhado pela casa nos possibilitando uma leitura furtiva a todo o momento? Revistas com ensaios sobre assuntos de grande interesse? Música pelo quarto o tempo todo... Uma letra nova cantada para você. Tudo aqui esta cheio de letra, música e poesia. O que era vazio agora vem sendo colonizado. Plantamos nossa bandeira nesse novo espaço. Plantamos alma. A verdadeira casa é aquela que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos. Aqui nascerei de novo, mas agora do meu jeito. E você faz parte disso.

Não quero você. Quero o ideal.
Não quero ir, nem quero dormir. Quero-te aqui o tempo todo, o sonho. Não quero ler na tela suas declarações escondidas, entrecortadas. Tampouco quero a poesia concreta do livro. Quero sentir, quero a poesia abstrata e viva, aquela do olho, do brilho. Não quero ouvir. Quero participar. Da tua voz quero o sotaque, quero sussurros. Não agradecimentos descabidos, mas a alegria muda do reencontro inesperado. Não quero certeza, nem quero saber de nada. Quero descobrir, conhecer e ser desvendado. Não quero a desconfiança, o vazio. Quero a partilha, a troca, entendimento – o silêncio cúmplice. Aliás, nem isso. Quero barulho, música alta, sua risada ainda mais, quero diálogo, debate, briga. Não quero o prazer fácil, nem a espera. Não quero pedir, quero implorar, agora, com entrega. Não quero o medo, quero resposta. Não quero profundo, prefiro o raso clichê, o café da manhã na cama, conversas ao amanhecer. Não mais as mesmas quatro paredes, quero mais noites sob a lua, ouvir o mar e sentir a brisa.
Não quero a verdade, nem tantas mentiras. Só quero aquela única permitida, a paixão.
Não quero, eu preciso.