domingo, 29 de maio de 2011

Qual o nome desse gesto?

Lizie é a moça que trabalhar na limpeza da empresa onde trabalho. Adoro gastar meu tempo com ela, no quartinho de limpeza dela conversando assuntos do cotidiano. Ela adora falar dos filhos e as peripécias que os filhos cometem. Sinto-me mais humano toda vez que saio do seu quartinho.

Nas conversas inteligentes que tenho com meus amigos, tudo é muito sofisticado, arrojado, com cheiro de perfume importado e lugares e roupas da moda. Gosto e me divirto muito, mas com Lizie não há essa pretensão de ser inteligente apesar de que as nossas conversas acabam sendo também inteligentes: o verbo é solto, vem de qualquer jeito, os adjetivos são inventados na hora e não deixa de ter um contexto. Não me esforço pra falar com Lizie, apenas pra ouvi-la sorrindo com os olhos. Disposição total em ficar ali naquele quartinho apertado ouvindo.

Outro dia comentei com ela que estava com um problema pessoal; casa completamente desorganizada e armários bagunçados em casa. E que toda vez que tenho armários desorganizados isso se estende para minha vida no trabalho. Comentei que ando sujando tudo, que a pia lá de casa tava com problemas, que havia uma mancha de perfume no chão. Relatei a zona que estava o apartamento e que não sabia como começar a limpar tudo. Daí ela que nada tem haver com meus problemas começa a montar uma estratégia pra resolução do mesmo. Ela sem sequer me julgar diz que vai dar um jeito e que é pra eu começar a pensar em outras coisas, porque aquilo poderia deixar na mão dela. Senti-me uma formiga diante desta prestação de solidariedade da parte dela.

Não pretendo dizer que meus amigos tenham que vir aqui e limpar minha casa e muito menos dizer que eles não têm valor e que apenas Lizie tem os maiores gestos do mundo. Relato o valor do gesto genuíno e do cuidado que às vezes as pessoas simples tem conosco. E nos arrebata e nos levam ao chão com o generoso gesto. Depois de realizado toda a tarefa eis que ela diz pra mim e diz:

_ Tinha um dinheiro sobre a mesa e apesar de achar que era pra mim, quero lhe dizer que não peguei. Eu fiz porque queria fazer e por gostar de você. Enfim é isso.

sábado, 28 de maio de 2011

Quantas gotas de esperança para um sábado


Tudo parece fazer pouco sentido neste sábado de sol, em Salvador... pego um livro, tentando buscar alguma utilidade. Inútil. No instante seguinte, abandono o livro e já penso em preparar alguma coisa para comer. As coisas continuam sem sentido. O tempo parece só estar acontecendo lá fora e se depender deste dia de sol, minha praia será aqui dentro. Desisto de pensar no que vou fazer. Vou bagunçar a casa toda pra ter o que fazer, bagunçarei toda a estante e vou voltar a procurar frases feitas, respostas prontas.

Procuro por um café, não tenho pó, daí invento um chá pra fazer. Falar em chás em apartamentos solitários sempre me lembra Caio Fernando Abreu, nem sei bem porque, mas chá me traz Caio e ultimamente ando com medo de me perder em suas escritas.

E escrevo, em velocidade igual a dos goles que dou no chá de camomila quente, excessivamente doce, tentando driblar a vontade de estar engolindo outra coisa. Mas é difícil demais optar num dia como o de hoje.

Tento me distrair com outra coisa. Coloco um som, baixo demais para prestar atenção na letra, mas não importa, já ouvi essa mesma música umas mil vezes hoje. Imagino que deva ser mais ou menos assim...

* na verdade, o melhor é a melodia da canção... a letra é tão bobinha que não quero me expor (rs)

Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro... (Clarice Lispector)


**aí a música: http://letras.terra.com.br/monique-kessous/1298334/ (veja o vídeo)

Dessas de Eça que são essas...

"... tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo condizia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!

Ergueu-se de um salto, passou rapidamente um roupão, veio levantar os transparentes da janela... Que linda manhã! Era um daqueles dias do fim de agosto em que o estio faz uma pausa; há prematuramente, no calor e na luz, uma certa tranqüilidade outonal; o sol cai largo, resplandecente, mas pousa de leve; o ar não tem o embaciado canicular, e o azul muito alto reluz com uma nitidez lavada; respira-se mais livremente; e já se não vê na gente que passa o abatimento mole da calma enfraquecedora. Veio-lhe uma alegria: sentia-se ligeira, tinha dormido a noite de um sono são, contínuo, e todas as agitações, as impaciências dos dias passados pareciam ter-se dissipado naquele repouso. Foi-se ver ao espelho"


Eça de Queiroz, O Primo Basílio

sábado, 21 de maio de 2011

A banda bonita da cidade

Nunca diga não pra mim. Eu não vou poder trabalhar conversar, descansar sem o teu sim seja sempre assim, por favor, me dê um sinal um cartão postal, um aval dizendo assim: 'não, não é o fim, dure o tempo que você gostar de mim entre o não e o sim. Só me deixe quando o lado bom for menor do que o ruim'. Nunca se esconda assim eu não vou saber te falar, te explicar que eu também me assusto muito; você nunca vê que eu sou só um menino destes tais que pensam demais... logo mais, vou correr atrás de ti. 'Não, não é o fim, dure o tempo que você gostar de mim entre o não e o sim, só me deixe quando o lado bom for menor do que o ruim'

"chora não Vini...o Vini tá chorando"



domingo, 15 de maio de 2011

De longe ninguém é do mal


Eu dei um soco na cara daquele rapaz. E só consegui pensar em minha mãe. Quem me conhece sabe que só teria coragem de matar pombos (isso porque odeio pombos) e no mais, jamais tive na infância qualquer ato agressivo próximo a isso. Ele tocou no nome da minha mãe, foi isso. O que ele não sabia, pobre rapaz, é a distância que me separa dela. O que ele não sabia que meu corpo está transbordando de saudade. O que ele não sabia era o cuidado que guardo o nome dela dentro de mim. E que ninguém nessa situação de saudade e solidão que me encontro poderá falar dela em vão. Ela é esse sentimento maior que amor, que é tudo que guardo comigo como quem guarda algo numa caixa e todo dia pela manhã abre pra saber se esta lá. E que o fato dessa caixa não esta guardada aqui comigo me colocou agressivo diante dele. Sim, eu dei um murro na cara dele após ouvir dele algo sobre minha mãe. Pobre rapaz, pobre ato meu. Foi uma forma animal de defesa. Me senti um bicho em ter feito aquilo, nada justifica a agressão, mas serei humano em reconhecer que foi também um alivio,que me fez brigar pelo meu sustento emocional. Sempre tive esse receio de em algum ponto da minha vida deixar de ser a vítima para ser o agressor. Não é apologia, apenas a consciência da estranha harmonia entre ser bom, ser humano e ser mal.

Não sei definir sentimentos. Eu tenho idéia de quase todos. O que se pode dizer daquilo que nos toca profundamente e que parece encher a cabeça da gente de ar, que faz você arrepiar ao ouvir uma canção. O que seria esse sentimento que faz com que você num domingo cedo, veja o apartamento como um espaço tomado por algo transcendental? Seus livros, CDs, a sua cadeira predileta, o café sobre a mesa, tudo configurando com esse sentimento que não se deve nunca de perto saber o nome. Vida deve ser isso: pensar em quem se ama fortemente, aí passa todo mundo na cabeça em formato piegas de um clipe, sim...sim você olhando fixamente para a chuva que cai lá fora e vem a imagem da sua mãe, dos seus sobrinhos brincando na cama com você, você volta a sentir seu corpo suado daquela foda maravilhosa que você teve em uma noite fantástica com vinho e música. A música nem termina e você lembra o tempo em que ficava observando a chuva da janela do seu quarto. Você percebe que é a mesma chuva porem ela não vem com desenhos imaginários daquele tempo. Você ainda pensa naquela roupa que sua mãe colocava em você para ir a missa. Era obrigatório ir a missa, cantar aqueles hinos religiosos. Os carinhos dados pela minha mãe. Ela não faltou em nada. E esse sentimento que não sei definir que sinto por ela é a única prova da minha existência. É o que tem de mais humano em mim. Me colocava no colo e ficava alisando meu corpo e eu ficava pegando em sua boca. Sempre adorei a boca da minha mãe. E sempre por mais que me falem em amor a única pessoa que consigo pensar é somente nela. Me sinto muito mal por não saber colocar a ela da forma mais justa esse sentimento. Não sei qual medida muito menos a forma Sempre o gesto mais simples sempre deixa a fala e ou pensamento entrar em ação.

O domingo nasceu molhado, o livro sobre essa mesa molhado, um dia, uma canção e um homem chorão. Um cara durão metido a ter todas as formas de resolver problemas, um marmajão não deve chorar. Que ridículo isso, melhor enxugar tudo isso e pensar em não pensar nisso. É esse sentimento que não posso chamar de saudade, é bem maior que isso. Saudade é muito pouco, ela aparece e some. O que sinto é um desejo que não é desejo. Volto a dizer que esse sentimento não tem nome. Um filme nos emociona, uma música, um livro, uma paisagem, um gesto, uma palavra. Não entenda que estou fazendo uma visão oba-oba da vida. E também me perdoe por deixar esse texto complicado. Procuramos o tempo todo nos ocupar, trocamos paixões por ponderações, afazeres diários e justamente o engraçado que o que mais me define nessa hora é o meu desejo e minha solidão, apesar de acreditar que são sentimentos abertos demais pra mim. É uma grande guerra que travo sem fim.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Anima ao entardecer


A graça esta no tom, quando a afinação perfeita cria o melhor momento da nossa vida.

Queria lhe pedir que esquecesse tudo por alguns instantes e se dedicasse a ouvir a canção “Anima” na voz de Milton Nascimento. Essa arte de ser tocado por uma canção no início da tarde é pra mim um grande milagre. Sei que essa doação que permito me consome e me rouba todo sentimento, tudo fica vazio dentro de mim. Depois quando a canção chega ao fim, ela generosamente me coloca no meu mesmo ponto; só que agora em outro estado: contemplação.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Preparando sentimentos



Bobagem. Esqueça isso. Desfaça toda a cama ponha o lençol, a colcha, as fronhas tudo para lavar. Depois prepare uma nova cama, completamente limpa e ainda com o cheiro da lavanda, deite-se. Durma tranqüilo que com toda certeza esse sentimento passa.