quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A dificuldade de continuar vivendo do presente


Eu nunca gostei de galinhas. Não sei por que estou iniciando o texto com essa frase, mas tenho vontade de um dia cortar um frango em partes. Um exercício para tentar curar meu trauma, meu nojo por esse bicho. Meu pai criava galinhas e amava disputar brigas de galo. Sempre odiei pombos, animais que tem asas me deixam um pouco inquieto. Penas não me atraem. Lembro de uma conversa com minha amiga Helena no MSN. Ela dizia odiar o galo do vizinho porque ele cantava todos os dias às 04 da manhã. Falei da poesia de ouvir um galo cantar, mesmo assim ela dizia que não via poesia nisso. Coisas da modernidade. Lembrança de João Cabral:

“um galo sozinho, não tece uma manhã”

Quando estamos predispostos a lembrar, tudo nos faz lembrar. O calor dos últimos dias me trouxe a lembrança forte do meu pai. Meu pai tinha essa doce mania de viver das lembranças do passado. Mais do que planos e projetos para o futuro ele sentava comigo no portão de casa, sempre com um radinho de pilha (porra, como isso era bom!) me contando casos. Deve partir daí minha melancolia em certos dias.

Vejo-me às vezes deslocado durante o dia. Certa vontade de parar e escrever e ver a vida passando, observando o comportamento dos outros. Mas parado. Estou deslocado e me sinto justamente o elefantinho que minha amiga Delana descreveu num de seus textos. Falara da entrada dele de patinetes numa loja de cristais. Eu me sinto assim no mundo... Desajeitado. Correndo, procurando encontrando pessoas e me debatendo com tudo e todos. Mas eu quero o contrário disso. Quero não ficar nessa corrida da grande extensão do nada. A poesia e a música me acalmam. Apenas isso me conforta nessa onda de justificar tudo pra todo mundo o tempo todo. É necessário ficar numa cadeira cativa da vida pra apreciar as belezas desse mundo. É preciso buscar meu pai lá no pretérito, com suas conversar. Cumprida história que não acaba jamais.

Acordo e antes mesmo do meio dia me vejo transformado.

* foto colagem do blog de Delana:

http://gelobaiano2.blogspot.com/



3 comentários:

Delana V. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Delana V. disse...

É um exercício penoso...mas temos que continuar tentando - oups...esqueci que vc não gosta de penas,rs. Beijão e obrigada pela lembrança.

Rodrigo disse...

Sou fascinado pelos seus textos!