Tenho um verdadeiro carinho pelo cotidiano. Apesar da minha pressa rotineira em tentar fazer tudo ao mesmo tempo e bem feito no estado do agora, habita em mim um olhar paciente de quem tem prazer em perceber e pousar em certas coisas. Ontem fui trabalhar e como habitualmente escolho a orla como trajeto, ganhei um presente cinematográfico:terça-feira, 27 de setembro de 2011
Meu mundo cinematográfico
Tenho um verdadeiro carinho pelo cotidiano. Apesar da minha pressa rotineira em tentar fazer tudo ao mesmo tempo e bem feito no estado do agora, habita em mim um olhar paciente de quem tem prazer em perceber e pousar em certas coisas. Ontem fui trabalhar e como habitualmente escolho a orla como trajeto, ganhei um presente cinematográfico:terça-feira, 20 de setembro de 2011
Tem que sobrar pra mais gente...vamos andar pra frente!
Acabei de queimar o feijão. É que estou voando demais no tempo, nas coisas, nos deveres. Eu precisava tanto de um tempo só meu, por uns segundos tentar não pensar em nada por fazer.
Também ando muito sensível as coisas que acontecem ao meu redor: domingo voltando da praia quase chorei ao ver uma senhora humildemente mal vestida tentando ganhar atenção as vendedoras da lanchonete. Fiquei extremamente triste ao perceber o quanto somos idiotas uns com os outros e que por mais educação que esse país possa ter nunca vamos chegar ao conceito mínimo de cidadania e respeito aos idosos. A senhora era uma idosa apenas querendo se alimentar. Ela não me pediu dinheiro, muito menos salgados de graça a ninguém. Apenas pegou uma sacolinha com moedas no saco e contou pra ver se daria a quantia necessária para comprar o salgado.
Pausa: ela tinha um olhar e uma humildade forte na alma... Era de uma simplicidade que serei impotente ao transcrever aqui. Mas era um olhar leve, a roupa e o saco não a deixavam mais pesada por conta do olhar que sustentava... Uma serenidade que só consigo ver nos idosos. Delicada e forte.
Depois foi até a banca com frutas e tentou olhar o preço, não percebendo voltou ao balcão com os salgados, mas foi expelida por jovens que chegaram afoitos querendo água de coco. Ela não queria só comida, queria muito mais. Assistia aquilo tudo na intenção de permitir que alguém realizasse algo solidário para aquela senhora. Sempre acabo agindo pelo reflexo de ser gentil, contudo ultimamente ando deixando alguém fazer, apenas para mensurar o grau de cegueira dos que estão a minha volta. Inacreditável o que ando percebendo e acima de tudo triste. Aquele sentimento, aquele meu silêncio junto com aquele silencio daquela senhora jamais vou conseguir transmitir aqui nesse texto. Acabei chorando na frente de Amanda, era para ser um domingo de praia e sol, ainda caberia um filme mais tarde. Acabei sendo eu mesmo naquele domingo. Dei a atenção e o cuidado que aquela senhora necessitava. E o domingo acabou e começou ali pra mim. A gente quer durar e quer crescer e luzir.
Vou jogar farinha nesse feijão e reaproveitá-lo, paira em minha refeição o sentimento de prazer e revolta de fazer parte desse mundo. Eu e aquela senhora fomos eternos um para o outro naquele instante, pelo silêncio, pelo olhar, pelo estar no mesmo plano juntos.
Sei lá as vezes a gente surta, nem era pra eu escrever nada mais que a palavra revolta e resignação aqui nesta página.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
Mas tenho que respirar...
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
As canções que você canta pra mim...
Parece que quem parte é a ferrovia...
Era como se estivesse no velório . Foi isso, ontem senti uma dor de velório dentro do sofisticado Pizza sur de Belo Horizonte. Aquela coisa que se foi e que não tem mais jeito, só resta choro e uma dor forte na alma. Ontem estava na roda de amigos e estive fora o tempo todo, estava em uma outra dimensão e ouvia com precisão todas as conversas a minha volta. Tinha uma lua clara bem sobre minha cabeça. Não, eu não estava sob efeito de alguma droga, apenas estava estranho e sem jeito como um elefante de patins em loja de cristais.
A melodia de uma música de Marisa Monte não saía da minha cabeça e me fazia fantasiar uma cena de filme, onde me via sozinho e andando pelas ruas. Pensando nas coisas que me assolam ultimamente. Então Kátia que também estava sem lugar sugeriu a ultima sessão do cinema mais próximo /Belas Artes:
-Vamos ao cinema agora?
-Não, eu to sem lugar. Estou estranho acho que preciso andar antes de chegar a casa.
-Eu também estou assim, vamos andar juntos?
-Sim, vamos.
Queria andar por Belo Horizonte, queria caminhar em silêncio por toda cidade. Helena chorou a partida de um primo que iria morar nos Estados Unidos na subida da avenida Afonso Pena e isso me deixou mais pensativo. Jouber tentava reverter o ambiente com músicas mais alegres dentro do carro, batidas mais swingadas. Nossas relações e a linha tênue que nos separa. Eu olhava pra lua e dizia que queria muito ver Soninha. Via nas ruas de Belo Horizonte o exemplo de cidade perfeita: arborizada, limpa com ciclovias, com pessoas bonitas e super produzida andando pelas ruas com suas bolsas e roupas de grifes seus cachorros com pedigree. Eu cheguei a comentar que não se compara Salvador com uma cidade como Belo Horizonte e muito menos qualquer cidade do Brasil, Salvador é única e é muito peculiar e se for pra comparar que compare com Cuba, com Lisboa, com a África que seja. As cidades são bonitas e perfeitas, aquário perfeito para alguns peixinhos que não querem mar. Um mar de mistérios profundos para a vida. Nada planejado, bonitinho arquitetado como essas cidades que vivem de buscar referências lá fora para se permanecer como metrópole. Não se compara Salvador com cidades brasileiras. Salvador sempre é isso tudo que todo mundo mesmo diz, eu não posso fugir disso, mas ela vai além pela magia e energia que se estabelece no ar. É uma cidade para quem tem uma forte sensibilidade.
Não quero mediar conversas chatas, não quero ser pacificador de nada. Busco uma vida interessante sem muitas palavras e muitos gestos e ação de perceber amenidades. A delicadeza de perceber bem estar numa relação de liberdade e respeito. Cada um procurando sua chave para portas que já estão abertas. Mas precisamos buscar algo não é mesmo? Isso sempre. Parados não vamos chegar a lugar algum. E que lugar é esse que queremos chegar? Não pode ser apenas em um apartamento na zona sul, não podemos ir a esse lugar em carros 4x4 e muito menos nos perder da rota fazendo viagens para Europa. Queremos ir, além disso, por favor! Não podemos chegar ao lugar alto de consumir para pertencer apenas... Por isso é preciso chegar nele, mas depois dele vamos seguir pra onde? Com a zona de conforto do ar condicionado, com TVs e com eletro portáteis de ultima geração será que vamos ir à algum lugar? Ou vamos vomitar tudo isso numa mesa com amigos mais decadentes e sem foco na vida? Vamos mostrar a roda em que ponto chegamos e como somos cheios de vida e sucesso. Bobagem, procuro o modulo simples de viver, e parto sempre rumo alguma experiência maior que minha capacidade intelectual possa me transportar, eu quero cheiro de azul, um baobá no meu quintal, uma piscina de oceano, quero me relacionar em silencio, fazer sexo com os olhos, consumir bens culturais, nadar pelado no Rio, dar chance para o diferente conviver com o tradicional, toque de Angola no celular, conversar com os Antônios em um café em Paris, dizer que assisto Faustão em rodas de intelectuais chatos, passar o sábado de carnaval na ladeira do Curuzu. Não sei se vou chegar a algum lugar na vida, mas deixou claro que estou a vontade na vida que levo.
A vontade no longo abraço que Kátia e Fabiano me deram quando nos despedimos no centro de Belo Horizonte.
