terça-feira, 27 de setembro de 2011

Meu mundo cinematográfico

Tenho um verdadeiro carinho pelo cotidiano. Apesar da minha pressa rotineira em tentar fazer tudo ao mesmo tempo e bem feito no estado do agora, habita em mim um olhar paciente de quem tem prazer em perceber e pousar em certas coisas. Ontem fui trabalhar e como habitualmente escolho a orla como trajeto, ganhei um presente cinematográfico:
Era um tempo nublado, ventava forte, da janela avistava os altos coqueiros balançando sob um fundo cinza melancolia. Da janela do carro também avistei uma moça com uma criança na praia. Pousei meu olhar: Ela estava na praia deserta com seu filho de aparentemente 2 para 3 anos. Aquilo tão simples, mãe e filho brincando na areia da praia num dia cinza de forte vento, para mim era algo tocante, de encher os olhos de lágrimas, de me encher de uma felicidade sem nexo. O casaco da criança balançava e então ela andava meio sem jeito como se tentasse dar os primeiros passos, esticava as mãos tentando tocar a barra do vestido que flutuava feito um balé no ar e gritava em risos. Havia apenas os barulhos do vendo, dos risos e das ondas quebrando forte na beira da praia numa bela e bucólica tarde prosaica. Barulho do mar, mãos estendidas, o balanço do vestido da moça com os seus cabelos ao vento, o riso mutuo e meu enquadramento sagrado. Sinto-me muito feliz no mundo das coisas simples, as coisas que aos meus olhos se tornam filme, poemas e fragmentos do cotidiano. Bateu uma tristeza silenciosa após a alegria do momento que passou que não mais me pertencia, que ficou na minha lembrança enquanto passava pela orla. Esse mundo dessas imagens passou e não mais me pertence.
Vejo-me tão inquieto tão urgente no decorrer do dia, mas tenho em mim a capacidade de flagrar a vida desarmada das pessoas antes do preparo e da pose que habituamos ao cotidiano. Precisamos parar e perceber as coisas que são milagres no dia da gente... Como aquele plástico que o vento leva e nos faz retornar ao belíssimo filme “Beleza Americana” num final de tarde engarrafada em qualquer metrópole. É preciso parar de correr, pois quem corre na grande maioria das vezes nem sabe para onde está indo. Desacelere seu olhar.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Tem que sobrar pra mais gente...vamos andar pra frente!

Acabei de queimar o feijão. É que estou voando demais no tempo, nas coisas, nos deveres. Eu precisava tanto de um tempo só meu, por uns segundos tentar não pensar em nada por fazer.

Também ando muito sensível as coisas que acontecem ao meu redor: domingo voltando da praia quase chorei ao ver uma senhora humildemente mal vestida tentando ganhar atenção as vendedoras da lanchonete. Fiquei extremamente triste ao perceber o quanto somos idiotas uns com os outros e que por mais educação que esse país possa ter nunca vamos chegar ao conceito mínimo de cidadania e respeito aos idosos. A senhora era uma idosa apenas querendo se alimentar. Ela não me pediu dinheiro, muito menos salgados de graça a ninguém. Apenas pegou uma sacolinha com moedas no saco e contou pra ver se daria a quantia necessária para comprar o salgado.

Pausa: ela tinha um olhar e uma humildade forte na alma... Era de uma simplicidade que serei impotente ao transcrever aqui. Mas era um olhar leve, a roupa e o saco não a deixavam mais pesada por conta do olhar que sustentava... Uma serenidade que só consigo ver nos idosos. Delicada e forte.

Depois foi até a banca com frutas e tentou olhar o preço, não percebendo voltou ao balcão com os salgados, mas foi expelida por jovens que chegaram afoitos querendo água de coco. Ela não queria só comida, queria muito mais. Assistia aquilo tudo na intenção de permitir que alguém realizasse algo solidário para aquela senhora. Sempre acabo agindo pelo reflexo de ser gentil, contudo ultimamente ando deixando alguém fazer, apenas para mensurar o grau de cegueira dos que estão a minha volta. Inacreditável o que ando percebendo e acima de tudo triste. Aquele sentimento, aquele meu silêncio junto com aquele silencio daquela senhora jamais vou conseguir transmitir aqui nesse texto. Acabei chorando na frente de Amanda, era para ser um domingo de praia e sol, ainda caberia um filme mais tarde. Acabei sendo eu mesmo naquele domingo. Dei a atenção e o cuidado que aquela senhora necessitava. E o domingo acabou e começou ali pra mim. A gente quer durar e quer crescer e luzir.

Vou jogar farinha nesse feijão e reaproveitá-lo, paira em minha refeição o sentimento de prazer e revolta de fazer parte desse mundo. Eu e aquela senhora fomos eternos um para o outro naquele instante, pelo silêncio, pelo olhar, pelo estar no mesmo plano juntos.

Sei lá as vezes a gente surta, nem era pra eu escrever nada mais que a palavra revolta e resignação aqui nesta página.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Mas tenho que respirar...


Acordei com uma vontade de mar, vontade de mergulhar e esquecer. Debaixo da água fico sereno, completo, com os pés fora do ar feito a canção de Arnaldo Antunes. Essa canção é tão forte. Sempre me renova ouvi-la pela proteção que sinto toda vez que fico dentro d’ água do mar. É a melhor meditação do dia. Pratico este exercício toda vez que preciso aliviar minha mente e não pensar em nada ou então enviar uma energia positiva á alguém, daí  mergulho e imagino a pessoa fortemente dentro da água do mar, aprendi isso sozinho e gosto muito de espiritualizar os meus mergulhos. Outro parte do meu ritual é subir as escadarias ao lado do hotel Mercure que dá visão plena do mar pelo alto. Meu refúgio é ficar ali ouvindo música e viajando (sem maconha) na letra e paisagem... uma paisagem cheia de charme, musica e poesia. Se existir momento melhor que este por favor deixe um recado no final do texto, por favor...Sei que esse não é o meu estado permanente, por isso é preciso cair na real e viver o outro lado da nossa vida, por isso é preciso voltar a tona e respirar:
Respirar o trânsito de logo mais, fazer o mercado mais tarde, a conta do aluguel que temos que pagar as nossas relações duras ou não, as pessoas que a gente ama e suas angústias, as ligações que temos que atender, os emails que precisamos ler e entender, as conexões que necessitamos fazer na internet,respirar a doença do ter muito pra pertencer, sim de fato precisamos respirar existe um povo de olho em todos nós para promover o próximo lançamento de um produto que é a “ nossa cara”..
A moça brinca com o cachorro, o menino solta a sua pipa, a mulher com seu filho e seus primeiros passos na areia da praia,os homens batendo bola na beira do mar. Sinto tudo e todos a minha volta, vejo um azul de céu e mar nos confortando nesta manhã de sol de terça. A vida parece correr bem leve e com os sintomas claros de bem estar. Estar diante de um enorme azul é de fato não ter palavras, apenas sentimento. São cenas de momento de leveza de inspiração de sentimentos, nada como não pensar em nada logo cedo e meditar mar... 
A gente precisa é de mar e isso não pode ter mesmo fim.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

As canções que você canta pra mim...


Ah é moleton, são vários tons, edredons. Um conforto, um carinho, um corpo todo peludinho. É isso que você faz e é por mim. Jouber'song!
Da janela, um olhar, corredor em verde num céu todo azul, luz...passagem. Dentro um bom papo, uma nota, uma canção pra embalar tardes de domingos ...

Parece que quem parte é a ferrovia...

Era como se estivesse no velório . Foi isso, ontem senti uma dor de velório dentro do sofisticado Pizza sur de Belo Horizonte. Aquela coisa que se foi e que não tem mais jeito, só resta choro e uma dor forte na alma. Ontem estava na roda de amigos e estive fora o tempo todo, estava em uma outra dimensão e ouvia com precisão todas as conversas a minha volta. Tinha uma lua clara bem sobre minha cabeça. Não, eu não estava sob efeito de alguma droga, apenas estava estranho e sem jeito como um elefante de patins em loja de cristais.

A melodia de uma música de Marisa Monte não saía da minha cabeça e me fazia fantasiar uma cena de filme, onde me via sozinho e andando pelas ruas. Pensando nas coisas que me assolam ultimamente. Então Kátia que também estava sem lugar sugeriu a ultima sessão do cinema mais próximo /Belas Artes:

-Vamos ao cinema agora?

-Não, eu to sem lugar. Estou estranho acho que preciso andar antes de chegar a casa.

-Eu também estou assim, vamos andar juntos?

-Sim, vamos.

Queria andar por Belo Horizonte, queria caminhar em silêncio por toda cidade. Helena chorou a partida de um primo que iria morar nos Estados Unidos na subida da avenida Afonso Pena e isso me deixou mais pensativo. Jouber tentava reverter o ambiente com músicas mais alegres dentro do carro, batidas mais swingadas. Nossas relações e a linha tênue que nos separa. Eu olhava pra lua e dizia que queria muito ver Soninha. Via nas ruas de Belo Horizonte o exemplo de cidade perfeita: arborizada, limpa com ciclovias, com pessoas bonitas e super produzida andando pelas ruas com suas bolsas e roupas de grifes seus cachorros com pedigree. Eu cheguei a comentar que não se compara Salvador com uma cidade como Belo Horizonte e muito menos qualquer cidade do Brasil, Salvador é única e é muito peculiar e se for pra comparar que compare com Cuba, com Lisboa, com a África que seja. As cidades são bonitas e perfeitas, aquário perfeito para alguns peixinhos que não querem mar. Um mar de mistérios profundos para a vida. Nada planejado, bonitinho arquitetado como essas cidades que vivem de buscar referências lá fora para se permanecer como metrópole. Não se compara Salvador com cidades brasileiras. Salvador sempre é isso tudo que todo mundo mesmo diz, eu não posso fugir disso, mas ela vai além pela magia e energia que se estabelece no ar. É uma cidade para quem tem uma forte sensibilidade.

Não quero mediar conversas chatas, não quero ser pacificador de nada. Busco uma vida interessante sem muitas palavras e muitos gestos e ação de perceber amenidades. A delicadeza de perceber bem estar numa relação de liberdade e respeito. Cada um procurando sua chave para portas que já estão abertas. Mas precisamos buscar algo não é mesmo? Isso sempre. Parados não vamos chegar a lugar algum. E que lugar é esse que queremos chegar? Não pode ser apenas em um apartamento na zona sul, não podemos ir a esse lugar em carros 4x4 e muito menos nos perder da rota fazendo viagens para Europa. Queremos ir, além disso, por favor! Não podemos chegar ao lugar alto de consumir para pertencer apenas... Por isso é preciso chegar nele, mas depois dele vamos seguir pra onde? Com a zona de conforto do ar condicionado, com TVs e com eletro portáteis de ultima geração será que vamos ir à algum lugar? Ou vamos vomitar tudo isso numa mesa com amigos mais decadentes e sem foco na vida? Vamos mostrar a roda em que ponto chegamos e como somos cheios de vida e sucesso. Bobagem, procuro o modulo simples de viver, e parto sempre rumo alguma experiência maior que minha capacidade intelectual possa me transportar, eu quero cheiro de azul, um baobá no meu quintal, uma piscina de oceano, quero me relacionar em silencio, fazer sexo com os olhos, consumir bens culturais, nadar pelado no Rio, dar chance para o diferente conviver com o tradicional, toque de Angola no celular, conversar com os Antônios em um café em Paris, dizer que assisto Faustão em rodas de intelectuais chatos, passar o sábado de carnaval na ladeira do Curuzu. Não sei se vou chegar a algum lugar na vida, mas deixou claro que estou a vontade na vida que levo.

A vontade no longo abraço que Kátia e Fabiano me deram quando nos despedimos no centro de Belo Horizonte.

"Gosto mais das pessoas do que dos princípios e, mais do que tudo na vida, gosto das pessoas sem princípios" Oscar Wilde